O que há de comum entre o Festival do Japão, os monumentos assinados pelo artista Yutaka Toyota em Registro (SP) e a Homenagem aos Idosos de 99 anos?
Aparentemente nada, a não se o fato que, tanto o evento realizado pelo Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), as obras de Toyota e o Hakujusha Hyoushou organizado pelo Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) – além de outros cerca de mil projetos relacionados a comunidade nipo-brasileira – tiveram a chancela de uma pessoa: Orídio Kiyoshi Shimizu. E o reconhecimento pelo apoio prestado às atividades das entidades e aos eventos da comunidade nipo-brasileira veio em forma de homenagem realizada no último dia 18, no Salão Nobre do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), numa iniciativa das cinco principais entidades nikkeis: Kenren, Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, Aliança Cultural Brasil-Japão e Bunkyo.
Foi uma das cerimônias mais concorridas já realizadas no Bunkyo – tanto que o brinde e o coquetel tiveram que ser transferidos para o hall da entidade – e também uma das mais marcantes.
Não só pela quantidade de pessoas presentes, mas pela forma como foi conduzida. A sensação era a de que todos queriam levar seu abraço não ao executivo, mas ao agora colega Orídio Shimizu. E o que se viu, conforme constatou a reportagem do Jornal Nippak – único veículo em língua portuguesa a cobrir o evento – foi resultado do que o próprio homenageado cultivou ao longo dos anos em que atuou no Banco América e posteriormente no Sudameris, Banco Real (do grupo ABN-Amro) e Santander – onde se aposentou como superintendente do Japan Desk. Estavam todos lá para prestar uma das mais justas homenagens ao ilustre filho da comunidade que tanto contribuiu para o fortalecimento das entidades nipo-brasileiras, como bem destacou o mestre de cerimônias da noite, Nelson Maeda.
Além dos anfitriões da cerimônia (Kihatiro Kita, presidente do Bunkyo; Yoshiharu Kikuchi, presidente do Enkyo; Yasuo Yamada, vice-presidente do Kenren; Ichiro Amano, diretor e presidente da Comissão de Relação com a Comunidade Nipo-Brasileira da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa no Brasil e Anselmo Nakatani, presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão), o evento contou com a presença do deputado federal Walter Ihoshi e do vereador Aurélio Nomura (PV), além de inúmeros representantes de entidades e associações. Destaque para as comitivas de Registro, formada pelo presidente do Bunkyo, Kuniei Kaneko, pelo presidente da Uces (União Cultural e Esportiva Sudoeste) e Fenivar (Federação das Entidades Nikkeis do Vale do Ribeira), Toshiaki Yamamura, pelo ex-prefeito Clóvis Vieira Mendes e pelo ex-vereador Manoel Chikaoka; e de Campinas, com o presidente e vice do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro de Campinas, respectivamente, Hiromiti Yassunaga e Tadayoshi Hanada.
Dos familiares, estavam presentes a esposa, Yuriko Kusunoki Shimizu, os filhos André Luiz e Alessandra, a nora Rose e os netos Júlia, de dois anos, e Lucas, de sete. O filho Adriano, que seguiu a carreira do pai, não compareceu porque no mesmo dia estava sendo homenageado por seus colegas em razão de sua transferência de local de trabalho.
Veio de Alessandra, aliás, um dos momentos mais emocionantes da noite. Como homenagem ao pai, ela produziu um vídeo com imagens de Orídio ao longo de sua carreira. A trilha sonora foi embalada por Kayama Yuzo. Até então, apenas familiares sabiam de sua existência. Torná-lo “público” foi um pedido do próprio pai, orgulhoso.
Entre outras homenagens, o homenageado recebeu placas comemorativas entregues pelas entidades co-realizadoras e uma outra entregue pelos representantes das quatro entidades assistenciais (Associação Pró-Excepcionais Kodomo-No-Sono, Assistência Social Dom José Gaspar “Ikoi-No-Sono”, Centro de Reabilitação Social Psicossocial Yasuragui Home e Sociedade Beneficente Casa da Esperança “Kibô-No-Iê”). Uma terceira homenagem foi prestada pelo presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro, Kuniei Kaneko. A esposa, Yuriko, recebeu um buquê de flores das mãos da vice-presidente da Asociação Feminina Esperança Fujinkai, Emico Kuramochi.
“Vou continua ajudando a comunidade”, diz Orídio
“Fiquei surpreso e assustado com a presença de tanta gente. Não sabia que vinha pessoas de Registro e Guatapará, entre outras localidades. Isso até acabou fazendo com que realmente acreditasse que eu merecia tudo isso”. A afirmação foi do próprio homenageado, Orídio Shimizu, um dia após a concorrida cerimônia no Bunkyo.
“Como estou aposentado, ninguém tinha obrigação de participar. Mas, ao contrário, todos fizeram questão de estar presente e esse reconhecimento me deixou bastante contente”, disse Orídio que, segundo seus cálculos, somando os anos de Banco América do Sul, Sudameris e Banco Real, conseguiu aprovar mais de mil projetos relacionados à comunidade nipo-brasileira. “Só em 2008, ano do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, foram cerca de 500 e no ano anterior, foram outros 300”, lembra Orídio, acrescentando que não fazia distinção entre grandes, médio e pequenos eventos.
“Podia ser um undokai, mas tentei cobrir o máximo possível, de norte a sul do País. O que importava eram as concentrações de japoneses”, conta Orídio, afirmando que ficou sensibilizado com o “amor demonstrado ao Japão”. “São grupos de pessoas que realmente servem à comunidade”, explica, acrescentando que toda instituição financeira visa rentabilidade. “O que procurei passar foi a imagem de credibilidade dos japoneses. De que quem tiver japoneses como clientes será visto de maneira diferente. Plantei essa ideia e a diretoria concordou”, destaca Orídio, que cita como exemplo o título de capitalização Real Cap. “Pela primeira vez vi o Banco Real dividir o lucro com a comunidade. Tinha sorteios diários, que iam para os kaikans e para o Centenário”, observa ele, que também guarda com carinhoa exposição “O Japão em cada um de nós”. Com curadoria de dos historiadores Paulo Garcez e Célia Oi, a exposição ficou em cartaz o dia 21 de maio a 18 de julho de 2008, no Espaço de Exposições do Banco Real, na Avenida Paulista, em São Paulo. Segundo o site da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, a exposição teve o objetivo de apontar a importância da comunidade de origem nipônica na atual sociedade brasileira por meio do compartilhamento de experiências e culturas durante um século de convivência.
Ainda, de acordo com o site, um dos destaques da exposição era o Portal da Memória, que trouxe a divulgação dos resultados inéditos do Projeto Ashiato, desenvolvido pela Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil em parceria com a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil).
“A exposição recebeu mais de 50 mil visitantes”, diz Orídio, acrescentando que a relação do ABN com o Japão é histórica.
“Apesar disso, a diretoria me perguntava porque insistia em patrocinar certo eventos, como a Homenagem aos Idosos de 99 Anos. Perguntavam se dava lucro. Respondia que não, mas que já tinham dado lucro. Os japoneses ensinam de uma forma que você basta olhar para aprender”, conta Orídio que daqui para frente pretende continuar ajudando a comunidade, mas de forma voluntária – atualmente é vice-presidente da Associação Pró-Excepcionais Kodomo-No-Sono. “Mas agora com mais tempo para minha família”, afirma.
De amigos para amigo
“Uma pessoa rara”
“O Orídio colaborou financeiramente com nossa associação da mesma forma que ajudou outras entidades nipo-brasileiras. Sem sua ajuda não teríamos como ampliar nossos projetos. Durante nossa convivência, percebemos se tratar de uma pessoa muito rara. Ele não só falava em respeito aos idosos japoneses como sentíamos que seu espírito era imbuído nesse sentido. Não à toa, ele sempre se colocou à disposição toda vez que recorremos em busca de ajuda. Com ele não existia meio termo. Outra característica marcante é o seu conhecimento da cultura japonesa. Como filho de imigrantes, o Orídio conhece muito bem a história japonesa e é quase uma enciclopédia ambulante”.
(Tsukasa Igarashi, presidente da Federação dos Clubes Nipo-Brasileiros de Anciões)
“Ele participou da sociedade local”
“Fiz questão de vir pessoalmente aqui hoje trazer meu abraço para o Orídio pelo trabalho que ele desenvolveu no Vale do Ribeira, especialmente em Registro, por ocasião das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa em Registro. Quando fui prefeito de Registro, ele ajudou muito os projetos da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro. Ele não só viabilizou recursos financeiros como também participou de nossa sociedade local”.
(Clóvis Vieira Mendes, ex-prefeito de Registro)
“Um divisor de águas”
“Sem exagero nenhum, podemos dividir a comunidade nikkei em antes e depois do Orídio porque depois que o conhecemos, dois antes das comemorações do Centenário, as coisas mudaram. Sua intervenção foi imprescindível para alavancar nossos projetos”.
(Toshiaki Yamamura, presidente da Uces – União Cultural e Esportiva Sudoeste – e da Fenivar – Federação das Entidades Nikkeis do Vale do Ribeira)
“Ele brigou pelo nosso espaço”
“Se a gente olhar pelo lado financeiro, o Orídio deu um suporte muito importante para as atividades da comunidade nikkei contribuindo com praticamente todas as entidades. Mas não foi só isso. Sabemos que o Orídio ocupou cargos importantíssimos por onde passou. Quando estava à frente do Banco América do Sul, a gente até entendia a ajuda por causa da relação do banco com a comunidade, mas depois vieram o Sudameris, o Real e ele continuou brigando por nosso espaço. Tínhamos no Orídio uma pessoa um autêntico representante da comunidade nipo-brasileira”.
(Akeo Yogui, ex-presidente do Kenren – Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil)
“Esperamos que ele não pare”
“Vim agradecer o apoio que ele deu para a realização de diversos eventos em Registro, como a Festa do Sushi, o Tooro Nagashi, o Bon Odori e até mesmo o Keirokai, mas principalmente para a construção dos sete monumentos assinados pelo artista plástico Yutaka Toyota. Através dele conseguimos 100% de patrocínio para as obras, que hoje são cartões postais para Registro. Só podemos desejar muito sucesso e muita saúde para que ele não pare de ajudar a comunidade”.
(Kuniei Kaneko, presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro)
“Ele abriu as portas para nós”
“Não conhecia o Orídio pessoalmente. Vim a conhecê-lo quando o procurei em busca de patrocínio para nosso 1º Festival do Japão do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro de Campinas, em 2005. Ele abriu as portas para nós e apoiou não só o Festival como também outras atividades. Hoje, ele é nosso sócio benemérito. Para nós, o Orídio representa tudo o que existe de bom”.
(Tadayoshi Hanada, vice-presidente do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro de Campinas)
“Que continue com saúde”
“O Orídio representou muito para a comunidade e nos ajudou muito. Seu trabalho foi muito importante para nós. Espero que continue com saúde e a nos ajudar”
(Kokei Uehara, ex-presidente da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil e ex-presidente do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social)
