“Já estou com certa idade e, em uma das consultas, o médico me disse que estava com pressão alta e me prescreveu determinado remédio. Quando fui à farmácia levando a receita, o farmacêutico, meu conhecido, disse que esse remédio tinha sido fabricado graças à aplicação das minhas descobertas. Fiquei muito orgulhoso e feliz por isso”.
Esta foi uma das declarações do professor emérito da Universidade de Hokkaido, Akira Suzuki, vencedor do Prêmio Nobel, no último dia 4 de setembro, durante palestra proferida no Pequeno Auditório do Bunkyo para cerca de 250 pessoas.
Se alguém guardava expectativa de encontrar-se com um showman, pronto para declarações bombásticas, certamente terá se decepcionado. Ele, definitivamente, não se encaixa nesse perfil. Muito pelo contrário: apresentou-se como um cientista que dedicou a vida toda à pesquisa e ao ensino na Universidade de Hokkaido.
Falou com muita serenidade sobre a trajetória de sua vida, que ele próprio classifica “como muito comum”, e buscou transmitir a todos que a ciência e a pesquisa são esforço e dedicação com a finalidade de proporcionar bem-estar à sociedade e sábia humildade aos estudiosos.
O professor Suzuki, acompanhado do vice-reitor da Universidade de Hokkaido, Takashi Mikami, chegou ao Bunkyo, às 16h, para encontrar-se com as autoridades e representantes das entidades nipo-brasileiras realizadoras do evento, bem com patrocinadores e jornalistas. Em seguida, pontualmente, às 17h, a comitiva dirigiu-se ao palco do Pequeno Auditório, com todos os lugares tomados.
Certamente, com compromisso agendado no dia seguinte com especialistas da área, o professor Suzuki falou muito pouco sobre seus estudos, preferindo enfocar outros aspectos de sua trajetória.
Nascido em Mukawa (localizada na costa sudeste da província de Hokkaido), no dia 12 de setembro de 1930, o professor Suzuki desejava dedicar-se ao estudo de matemática. “Sempre fui uma pessoa simples, não gosto de coisas complexas, e achava que lidar com os números e cálculos da matemática combinava com a minha maneira de ser”, afirmou.
O rumo de sua vida mudaria completamente quando, no curso colegial, conheceu o livro “Textbook of Organic Chemistry”, de autoria de Louis F. Frieser (1899/1977) e Mary D. Frieser (1909/1997), professores da Harvard University. “Era uma publicação de 750 páginas”, conta o professor Suzuki, que ficou profundamente interessado pelo assunto, e levou de 2 a 3 anos para conseguir ler todo o livro, usando o dicionário de inglês.
De Matemática mudou para Química, curso concluído em 1954 na Faculdade de Ciências da Universidade de Hokkaido. Durante o curso também ficou muito interessado com os trabalhos de Herbert Charles Brown (1912/2004), pesquisador que exerceu grande influência em sua carreira. Após concluir o doutorado na Universidade de Hokkaido, seguiu para os Estados Unidos para o curso de pós-doutorado na Universidade de Pardue, exatamente sob a orientação do professor Brown.
Em 1965, de volta a Hokkaido, inicia as pesquisas sobre uma nova área da síntese orgânica. Passados 14 anos, em 1979, o professor Suzuki anuncia suas descobertas com o método “reação por acoplamento cruzado de Suzuki-Miyaura”.
Como funciona esse processo? Para criar materiais é preciso unir átomos de carbono, o elemento básico da química orgânica. Em suas pesquisas, ele desenvolveu técnicas que permitem a criação de novas moléculas de carbono, mais complexas que as existentes na natureza, utilizando o paládio como catalisador.
Esse processo, conhecido como acoplamento cruzado catalisado por paládio de Suzuki-Miyaura, tornou-se muito importante na produção de medicamentos para baixar a pressão sanguínea, anticancerígenos e antibióticos, defensivos agrícolas, entre outros. Tem sido também utilizado na fabricação de cristal líquido para confecção de telas de TV e celular.
O acoplamento cruzado de Suzuki-Miyaura simplificou o processo de síntese orgânica, o que tem possibilitado desenvolvimento intenso de pesquisas em muitas áreas.
Certamente nesses novos procedimentos, como na maioria dos casos, uma das primeiras providências seria encaminhar o registro da patente e assegurar os direitos das descobertas. No entanto, não foi isso que aconteceu, conta o professor Suzuki. Não faz parte da política da universidade patentear os trabalhos de seus professores-pesquisadores, explica, e sendo assim, ele deveria contratar um escritório especializado nesses procedimentos, “o que custava muito dinheiro e eu não tinha esses recursos”.
O reconhecimento de suas pesquisas partiu exatamente de seu orientador na Universidade de Pardue, Herbert Charles Brown, que apresentou seus trabalhos junto à comissão do Prêmio Nobel. Do primeiro contato com os representantes encarregados da investigação sobre suas descobertas decorreram oito anos, e o próprio professor Brown falecera em 2004. Assim, em 2010 o professor Akira Suzuki foi agraciado com o Prêmio Nobel de Química, juntamente com o sino-japonês Ei’ichi Negishi e o norte-americano Richard Heck, também orientandos de Brown.
Já aposentado da universidade, o professor Suzuki acredita que, “talvez, o fato de não ter patenteado as descobertas tenha influenciado a decisão da comissão de premiação do Nobel. São estudos que estão beneficiando a todas as pessoas, sem nenhuma restrição”.
Durante sua palestra, o professor Suzuki se preocupou, especialmente, em passar a mensagem aos jovens, estimulando-os a serem “ambiciosos” a procurar novos caminhos, novas propostas, novos países, novos amigos.
No encerramento, o palestrante foi agraciado com uma pintura de Mitsutaka Kogure retratando a cachoeira de Foz de Iguaçu. E, apesar do cansaço, sempre pacientemente e sorridente, o Prêmio Nobel Suzuki posou para as fotos junto às pessoas que aguardavam por dele.
A conferência “O Caminho do Prêmio Nobel de Química” foi uma realização conjunta da Associação dos Ex-Alunos da Universidade de Hokkaido do Brasil, Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social – Bunkyo, Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo – Enkyo, Federação das Associações de Províncias dos Japão no Brasil – Kenren, Aliança Cultural Brasil-Japão, JICA, Associação dos Bolsistas JICA – ABJICA, Associação Hokkaido de Cultural e Assistência. O patrocínio foi da Fundação Kunito Miyasaka, Umicore Brasil Ltda., Blue Tree Hotels e Service Global Turismo. Apoio cultural do Consulado Geral do Japão em São Paulo e apoio da Associação dos Bolsistas do Governo Japonês – ABMON, Associação Brasil-Japão de Pesquisadores – SBPN, Associação Brasileira de Ex-Bolsistas no Japão – ASEBEX, São Paulo Shimbun, Nikkey Shimbun, Jornal Nippak, Radio e TV Nikkey e Revista Mundo OK.
