No começo da noite, domingo, dia 23 de outubro, mais de 200 pessoas tiveram a oportunidade de acompanhar uma das mais inspiradas performances da concertista Yoko Nishi ao interpretar duas composições de sua própria autoria: “Floresta Verde” (composição inspirada na floresta subtropical brasileira, que observou do helicóptero quando se dirigia para as Cataratas do Iguaçu) e “O Mar Enluarado” (inspirado no luar que se esparramava no mar de Okinawa).
No auditório, nas primeiras fileiras, Heizo Takenaka, duas vezes ministro no governo de Junichiro Koizumi (Economia e Política Fiscal e depois do Interior e Comunicações, atual professor e diretor do Instituto de Pesquisas em Segurança Global da Universidade de Keio). Junto com ele, uma comitiva de cerca de 15 pessoas que também vieram do Japão. Takenaka havia ministrado palestra, a partir das 16h, sobre “Pós-desastre de volta à harmonia com a natureza”.
Um dos lados da plateia foi ocupado por mulheres trajando kimono e homens de terno escuro. No ar havia certa magia protagonizada pela arte do koto que vinha se catalisando desde sábado à tarde quando teve início o ensaio. O primeiro foi somente da parte brasileira – depois de, cada um em sua escola, estudar a partitura enviada por Yoko Nishi, era hora de tocar em conjunto e aparar as diferenças.
As professoras como Miriam Sumie Sato (do Grupo Miwakai), Tamie Kitahara (do grupo Seiha Brasil de Koto), explicaram que a principal dificuldade é o ritmo adotado por cada uma das escolas. Mas, nada impossível. No palco, professoras e alunos dos quatro grupos de koto: Miwakai, Miyaguikai, Seiha e Yamada. Além delas, cinco homens para o shakuhachi. Mas, nada impossível. Talvez, o mais difícil tenha sido posicionar os 14 kotos e o grupo dos cinco shakuhachi no palco do Pequeno Auditório, em meio aos fios de microfones.
No domingo, os ensaios iniciaram às 9h, depois de um breve café da manhã, sob a batuta da mestre Yoko Nishi. Depois de repassarem a “Fantasia sobre a peça clássica Kurosabushi” (composição de Tadao Sawai), foi a vez de Danilo Baikyo Tomic acompanhar ao shakuhachi a composição de Michiyo Miyagui “Mar na Primavera”. A seguir, Nishi assumiu o solo com a composição de Shingo Edo, “Cruzeiro do Sul”, obra criada pelo ardente desejo de o autor ver a constelação Cruzeiro do Sul, visível no Brasil, mas não no Japão.
Hora do almoço, todos reunidos na Sala de Exposição para o bento, um momento para conversar com a mestre Yoko Nishi e estabelecer contatos com integrantes de outras escolas.
Na parte da tarde, a maioria deles se acomodou nas poltronas do Pequeno Auditório para acompanhar, em silêncio e máxima atenção, o ensaio de Yoko Nishi, enquanto se testava o som e se decidia sobre as luzes. “Trata-se de uma oportunidade rara poder tocar e acompanhar os trabalhos de uma profissional como a professora Nishi. Certamente, no Japão, poucos tiveram este privilégio que estamos tendo no dia de hoje”, afirmou a professora Tamie Kitahara, uma das mais atuantes professoras de koto, shamisen e canto minyo.
Por volta das 15h, alvoroço no camarim: momento de todos vestirem seus quimonos e hakama. O grupo de shakuhachi preferiu o terno escuro. Yoko Nishi escolheu para a primeira parte do programa o quimono lilás, depois trocou por roupa ocidental, florida.
Ao final, sobrou pouco tempo para tietagem com Yoko Nishi (que foi aplaudida em pé), que foi convidada, juntamente com a comitiva de Heizo Takenaka e a direção da SBPN – Associação Brasil-Japão de Pesquisadores para um jantar na residência oficial do cônsul-geral do Japão em São Paulo.
Coube a cada um dos participantes levar para casa uma rosa colombiana (vermelha ou branca) que fazia parte do arranjo de palco. E, mais do que isso, lições de koto que não desaparecem em poucos dias como as belas rosas.
Fotos: Célia Abe Oi
