Escrito por Aldo Shiguti
Acontece nesta segunda-feira (21), a partir das 18h30, no Grande Auditório do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), a pré-estréia de “Yami no Ichinichi” (Um Dia de Trevas – O Crime que Abalou a Colônia Japonesa).
O documentário é fruto do trabalho e pesquisa do diretor Mario Jun Okuhara (Imagens do Japão) e demorou 11 anos para ser concluído. Tudo resumido em uma hora e meia e com legendas para o português. Pouco tempo para o que o diretor se propõe a discutir. “Yami no Ichi Nichi” (Um Dia de Trevas – O Crime que Abalou a Colônia Japonesa no Brasil), conta a saga de Tokuichi Hidaka. Em 1946, à época com 19 anos de idade, foi um dos autores do assassinato do coronel reformado Jinsaku Wakiyama, em crime atribuído a uma entidade denominada Shindo Renmei (Liga dos Caminhos dos Súditos).
Tal entidade era, supostamente, responsável por uma onda de ataques e atentados na capital e no interior paulista aos principais líderes da colônia, que iniciavam um movimento de esclarecimento sobre a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial
Entregou-se à polícia com o restante do grupo e cumpriu 15 anos de prisão. Em liberdade, sofreu a punição da colônia japonesa: foi discriminado, condenado ao ostracismo e banido das páginas da História sem oportunidade para contar a sua versão. Décadas mais tarde, Hidaka inicia uma busca por amigos e pessoas desse período para reconstruir a memória desta época e encontrar o sentido da sua vida no Brasil. Agora, sua vida, repleta de fatos obscuros e muitas incertezas, vem à tona através do documentário.
Na verdade, o crime funciona como uma espécie de “pano de fundo” para discutir um dos assuntos mais polêmicos da comunidade. “Tenho mais de 40 horas de gravações”, diz Mario Jun, acrescentando que o documentário faz parte do projeto “Abrangências”, que inclui ainda a realização de um Simpósio que acontece nesta sexta-feira (18), na Escola Paulista de Direito.
Simpósio – O Simpósio, batizado de “A Visão dos Nipo-Brasileiros do Pós-Guerra”, reunirá personalidades ligadas à comunidade nipo-brasileira para o debate filosófico e objetivo acerca do tema citado. O intuito, segundo os organizadores, é prestar um serviço de informação frente às novas gerações. Com início às 13 horas, o encontro conta os seguintes palestrantes: Tokuichi Hidaka (protagonista do documentário e responsável pelo atentado que culminou na morte do coronel Jinsaku Wakiyama); Osamu Toyama (jornalista e autor do livro “Cem Anos de Águas Corridas”); Hatiro Shimomoto (Empresário e advogado, abordará o período de reformulação da comunidade nipo-brasileira no Pós-Guerra); Masato Ninomiya, cuja temática será o desenvolvimento e entrada de empresas japonesas no Brasil; e o desembargador Kazuo Watanabe, que fechará o ciclo de palestras debatendo o crescimento e ascensão dos nipo-brasileiros na sociedade.
“O simpósio apresenta o documentário que, por sua vez, complementa o simpósio”, explica Mario Jun, lembrando que o documentário retrata um dos períodos mais marcantes dos japoneses no Brasil: o pós-guerra, em especial o contexto radical de um dos grupos mais em evidência na época e cuja ferida não foi cicatrizada.
Curiosidades – “Sempre tive curiosidades sobre o assunto e ela ficou ainda mais aguçada com as histórias que minha avó materna, Chie Miyake, contava. No final da década de 90 voltei a estudar nihongo através de um livro chamado ‘Soubou No Taichi’, cujo autor não me recordo o nome e que narrava a história da imigração através da saga de uma família”, conta Mario Jun que, na época, tinha 22 anos.
“Em 2000, estava ainda à procura de pistas quando o escritor Fernando Morais lançou ‘Corações Sujos’”, comenta o diretor, afirmando que a obra do autor de “A Ilha” e “Olga” “serviu para mostrar que eu estava no caminho certo”.
“De lá para cá foram muitas viagens e entrevistas”, revela Mario Jun que, entre os depoimentos (no documentário são seis), destaca o de Tokuichi Hidaka, não por acaso o protagonista do documentário. “Trata-se de um material quase exclusivo. Este pessoal ficou muito tempo sem falar e o documentário é importante justamente por dar oportunidade para o outro lado, ou seja, ouvi-los falarem e tentar entender a versão deles”, diz o diretor, acrescentando que “já temos o lado oficial dos derrotistas”.
“Queremos quebrar essa imagem estereotipada de que os vitoristas eram ignorantes, mas não é nossa intenção entrar no mérito de quem fez isso ou quem fez aquilo. Cada depoimento se transforma numa história diferente, como se fosse uma peça de quebra-cabeças”, afirma Mario Jun, afirmando que ainda tem muitas dúvidas sobre o assunto.
“Falar sobre o tema em filme é muito mais difícil do que escrever. O que procuro deixar bem claro são as circunstâncias de como aconteceram os fatos. Isto é, a sociedade brasileira estava vivendo a era Vargas, um regime totalitário, de proibições e restrições. É importante destacar essa parte da história porque para entender o movimento de um grupo político é preciso inseri-lo dentro de um contexto histórico”, explica Mario Jun, frisando, mais uma vez, que não é intenção do documentário fazer julgamentos.
Identidade – “Tento fazer com que a nova geração, a nossa, entenda que somos frutos desta história e fazemos parte dela. A comunidade nipo-brasileira, que supera tantas crises, tem que superar mais este episódio, que está enraizado na sociedade brasileira. Apesar deste capítulo da história não ter sido contada de geração para geração, sofremos as conseqüências até hoje. Não podemos fechar os olhos para uma acontecimento tão importante”, justifica Mario Jun, afirmando que “não ganhei um tostão até hoje com a realização deste projeto”.
“O documentário não é, de forma alguma, comercial. Posso dizer que estou chegando no final de uma busca pela minha própria identidade. No final das contas, quero apenas contribuir para que apareçam mais pesquisas sobre temas relacionados à repressão e à tortura. Isso só serve párea fortalecer ainda mais nossa comunidade”, garante o diretor, antecipando que pretende transformar o documentário em DVD. “Também estamos abertos para apresentá-lo em circuitos itinerantes”, diz.
Projeto Abrangências – Uma Nova Visão da Cultura Japonesa no Brasil
Simpósio
Quando: Dia 18 (sexta-feira), a partir das 13 horas
Onde: Escola Paulista de Direito – Av. Liberdade, 956
As inscrições gratuitas podem ser feitas através do site www.wix.com/abrangencias/2011
Pré-estréia do documentário
“Yami no IchiNichi – O Crime que Abalou a Colônia Japonesa no Brasil”
Quando: Dia 21 (segunda-feira), às 18h30
Onde: Grande Auditório do Bunkyo (Rua São Joaquim, 381, Liberdade)
Entrada franca.
Retirada de ingressos e informações pelo tel.: 11/3208-9111
